Andam de mãos dadas em silêncio porque sabem que nada que falassem conseguiria fazê-los pensar em outra coisa. Preferem, então, apenas curtir o fim de tarde daquele domingo. No parque, crianças brincam, ambulantes oferecem quinquilharias, carros apressados buzinam. Nada parece importuná-los, somente aquele pensamento de que iam se separar em poucas horas. De vez em quando um deles vira e beija o ar, mas nenhuma palavra sai. Andam, andam e andam.
Ele, mais incomodado com o silêncio, sugere o jantar. Ele sente uma vontade enorme de comer frutos do mar. Ela não é fã, prefere carnes. Ele ignora seu desejo pra satisfazê-la. Andam mais um pouco até o restaurante e não conseguem dizer nada no caminho, só trocam carícias. Aquele assunto é proibido. Quando ela ensaia uma expressão de tristeza, ele a anima e a faz esquecer do que está pensando. Pelo menos por enquanto.
Na mesa conversam frivolidades. Últimas notícias, futebol. Fazem piadas, essas que só eles entendem. O tempo passa. Ela olha o relógio, disfarça a preocupação com um sorriso amarelo. Ele pede a conta. Entram no táxi, silêncio novamente. Ela olha pela janela e grava cada pedaço do caminho, não quer deixar nada pra trás. O lugar que os dois tanto evitaram parece estar chegando. Ela aperta a mão dele com força e pensa: “essa parte eu não quero gravar”.
Depois do check-in, a despedida. Dessa vez as palavras saem com uma rapidez impressionante. Tudo que eles queriam ter dito mais cedo e não conseguiram agora sai com grande facilidade. Lágrimas, abraços, beijos. Anunciam o vôo. Ela pega sua bolsa e hesita ir por um segundo. “Por que a vida real não pode ser como nos filmes que os protagonistas sempre decidem ficar em cima da hora?”, ela pensa. Ele lamenta, dá um último beijo e a vê se afastando. Ela olha pra trás e ele ainda está lá. Ela anda mais um pouco e o perde de vista. Na poltrona do avião ela pensa sobre filmes de novo. “Eles sempre descem do avião, sempre”. A vida real é tão chata. Ela liga pra ele antes que peçam para desligarem os celulares e fala um último eu te amo. Agora é hora de engolir o choro. Ela não contou pra ele, mas assim que chegou em casa sentiu uma vontade enorme de comer frutos do mar.
Por Yasmin Medeiros



